Formada em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Neide Rigo estuda e divulga as PANC desde 2006, através do blog Come-se — muito antes do acrônimo “PANC” se popularizar. Foi colunista no caderno Paladar do Estadão, hoje compartilha seu trabalho no Instagram (@neiderigo) e, em 2024, lançou o livro Comida Comum. Conversamos com ela sobre herança familiar, quintal produtivo e o processo de apropriar-se de um rótulo para dar mais visibilidade ao próprio trabalho.
Uma relação anterior ao termo
Antes de o termo “PANC” ganhar popularidade — impulsionado sobretudo pelo livro de Valdely Kinupp, de 2014 —, Neide já consumia e escrevia sobre essas plantas havia oito anos. A relação, conta ela, vem de berço: sua família é “da roça”, e muitas dessas espécies sempre fizeram parte do cotidiano doméstico, mesmo depois da mudança para São Paulo. O quintal da própria casa segue cultivando diversas PANC até hoje.
O que ela pensa sobre o rótulo “PANC”
No início, Neide hesitou em aderir ao termo, incomodada com o fato de agrupar plantas tão diferentes sob uma mesma sigla. Mudou de ideia ao perceber os benefícios: espécies pouco conhecidas ganharam visibilidade, e ela própria passou a ter uma forma mais clara de explicar seu trabalho. Ainda assim, no dia a dia, prefere nomear as plantas em vez de generalizar:
“Ao invés de dizer ‘salada PANC’, prefiro falar ‘salada com capuchinha, serralha, capiçoba’.”
Para ela, é uma questão semântica — uma classificação extra-botânica que ajuda a comunicação, mas não deve apagar a identidade de cada planta.
Uma horta “de chuva”
Neide também cultiva uma horta comunitária que não depende de irrigação — só da chuva. É uma forma de observar, na prática, como as plantas reagem às variações do clima: em época de estiagem, ficam amareladas, algumas secam. Ao longo do tempo, ela e o grupo foram selecionando espécies adaptadas às condições disponíveis, até chegar a um modelo que funciona. Os mutirões periódicos — organizados com o marido — são também momentos de troca: pessoas levam mudas para casa ou para outras hortas urbanas da cidade. Na visão de Neide, essas hortas comunitárias são hoje verdadeiras guardiãs das PANC em São Paulo.
Sobre o medo da identificação incorreta
Um receio recorrente em torno das PANC é o risco de intoxicação por identificação equivocada. Neide reconhece o problema, mas defende que a resposta não é o silêncio — é mais informação, não menos. Ela lembra que espécies convencionais também oferecem riscos se mal utilizadas (o excesso de noz-moscada, por exemplo, pode causar complicações graves), e que evitar o assunto só reforça a negligência em relação às PANC. Para ela, o caminho é conhecer de fato: quais partes são comestíveis, como preparar, como consumir com segurança.
O convite de Neide
Ao longo da entrevista, Neide defende que universidades — especialmente os cursos de Nutrição — invistam em mais atividades práticas com PANC, e que gestões públicas comecem apoiando quem já sabe cultivar: agricultores e agricultoras de base familiar. Depois, sim, investir em hortas próprias, espaços que ensinam pela convivência.
No fim, sua mensagem central é simples: as PANC devem complementar a alimentação, tornando-a mais biodiversa — não substituir o que já se come. E o primeiro passo para isso é sempre o mesmo: falar sobre elas, provar, aprender fazendo.
Conteúdo baseado na entrevista “Herança familiar e prática no quintal de casa: conhecendo as PANC com Neide Rigo”, de Letícia Gonçalves e Evelym Landim, publicada na Revista Sustentarea (USP), v. 9, n. 1, abril de 2025.