Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa descreve o Cerrado num ritmo quase musical: o milho que cresce, o pequi que amadurece e cai, a pitanga e o caju que chegam com o veranico. É uma imagem bonita — e também um lembrete. A terra tem seus próprios ciclos, sua própria diversidade, sua própria fartura. A pergunta é: o nosso jeito de comer ainda respeita esse ritmo?

A resposta, infelizmente, tende para o não. Embora a produção agrícola mundial nunca tenha sido tão grande, a base do que comemos ficou perigosamente estreita: cerca de 60% das calorias consumidas no planeta vêm de apenas três cereais — milho, trigo e arroz. Esse tipo de cultivo em larga escala, voltado à máxima produtividade, depende de muita água, fertilizante sintético e agroquímico, e ignora a capacidade natural das plantas de se adaptarem a solos e climas diferentes. Não é coincidência que a produção de alimentos responda por cerca de 26% de todas as emissões de gases de efeito estufa geradas pela atividade humana no mundo.

Diversidade como resposta

Se a padronização é parte do problema, a diversidade é parte da solução. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), dietas saudáveis e sustentáveis são aquelas que promovem bem-estar com baixo impacto ambiental — e, para funcionar, precisam ser acessíveis, seguras e culturalmente adequadas. Não existe uma receita única: o que é sustentável varia de região para região.

Duas mudanças concretas costumam fazer a maior diferença:

  1. Valorizar a biodiversidade alimentar local, incorporando ingredientes nativos como pequi, jatobá, baru e taioba — as chamadas PANC, Plantas Alimentícias Não Convencionais.
  2. Reduzir o consumo de carnes vermelhas, processadas e ultraprocessados, categorias com alto impacto ambiental na produção, no processamento e na distribuição.

O peso dessa segunda escolha é maior do que parece: estudos apontam que a dieta média do brasileiro gera uma pegada de carbono de 6,7 kg de CO2 equivalente e consome 3.478 litros de água — e a carne vermelha sozinha responde por cerca de 70% dessa pegada de carbono e 40% da pegada hídrica.

O papel das PANC

As PANC são raízes, caules, brotos, flores, frutos e sementes que crescem espontaneamente em diferentes ambientes, mas raramente chegam à nossa mesa — muitas vezes por serem confundidas com “mato” ou erva daninha. Por serem regionais, de crescimento espontâneo e adaptadas ao clima local, elas exigem menos insumos e menos transporte, o que significa menos emissões. É uma alternativa concreta ao modelo de monocultura: mais resiliente, mais nutritiva e mais alinhada com os ciclos que Guimarães Rosa descrevia.

As decisões que tomamos à mesa hoje moldam não só a nossa saúde, mas o futuro do planeta. Resgatar ingredientes nativos, valorizar a biodiversidade e comer com mais consciência são passos pequenos com efeito grande — porque preservar a comida é também preservar a cultura, os biomas e a vida.


Conteúdo baseado na matéria “Entre pequis e pitangas: o caminho para uma alimentação sustentável”, de Isabela Gonçalves Camusso, publicada na Revista Sustentarea (USP), v. 9, n. 1, abril de 2025.

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