As Plantas Alimentícias Não Convencionais — as PANC — vêm ganhando espaço no debate global à medida que o mundo busca alternativas mais sustentáveis para produzir e consumir alimentos. Mas afinal, o que são exatamente? Segundo o pesquisador Guilherme Ranieri, autor do livro Matos de Comer, são plantas que “poderiam ser consumidas com frequência, mas não são” — simplesmente porque nunca entraram na cadeia alimentar convencional. A categoria é ampla: engloba frutas, castanhas, cereais, verduras, raízes, tubérculos, folhas, bulbos e até partes normalmente descartadas de plantas comuns, como a folha da batata-doce, a casca da banana e o coração da bananeira.

Uma parceria natural com a agroecologia

A agroecologia busca sistemas de produção que respeitem os ciclos naturais, usem insumos locais e conservem o ambiente — e as PANC encaixam-se perfeitamente nessa lógica. Por exigirem poucos insumos externos e se adaptarem bem ao cultivo em pequena escala, elas são aliadas naturais de pequenos produtores. A Embrapa, inclusive, tem promovido estudos e guias de negócio que apontam o cultivo de hortaliças não convencionais como alternativa rentável e sustentável para a agricultura familiar.

Aliadas contra as mudanças climáticas

Secas mais longas, chuvas irregulares, enchentes: as mudanças climáticas já afetam diretamente as plantações convencionais, muitas vezes pouco adaptadas a esses novos extremos. As PANC, ao contrário, costumam ser mais resilientes a diferentes solos e climas, além de demandarem menos água e insumos — o que reduz a pegada ecológica da produção de alimentos.

Joias nutricionais

Em comparação com hortaliças convencionais, várias PANC levam vantagem nutricional. Um estudo publicado no Brazilian Journal of Food Technology mostrou que o peixinho-da-horta tem mais de 13 g de fibra alimentar a cada 100 g — mais do que o dobro da couve-manteiga crua (3,1 g/100g). Já espécies como almeirão roxo, azedinha, beldroega, major-gomes e vinagreira apresentam mais de 400 mg de potássio a cada 100 g, superando hortaliças convencionais. A ora-pro-nóbis se destaca por proteínas e ferro; o peixinho-da-horta, por ácidos graxos essenciais e antioxidantes.

PANC na COP30

Em novembro de 2025, Belém (PA) sediará a COP30 — a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas — e a culinária paraense deve ganhar protagonismo na discussão sobre alimentação e sustentabilidade. Pratos como o tacacá e a maniçoba, que levam PANC como o jambu e as folhas de mandioca, podem representar o Brasil na mesa da conferência, evidenciando a riqueza alimentar da região amazônica e a importância de valorizar quem produz esses alimentos: majoritariamente agricultores familiares locais.

PANC nas escolas

Algumas cidades já colocam as PANC no centro da educação alimentar. Em Jundiaí (SP), o programa Inova na Horta levou hortas com PANC para 100% das escolas municipais, com o objetivo de ensinar sobre ciências naturais, meio ambiente e alimentação saudável desde cedo. Em São Paulo, o projeto Viva Agroecologia, na EMEF Desembargador Amorim Lima, integrou as PANC às hortas escolares, ao currículo pedagógico e ao próprio cardápio, formando uma rede de alunos, pais e professores engajados no tema.

Como consumir com segurança

Vale um alerta importante: como muitas PANC nascem espontaneamente em calçadas e terrenos baldios, não é recomendado colher e consumir espécies encontradas nesses locais, pelo risco de contaminação — mas essas mesmas plantas podem servir de muda para cultivo seguro em casa. Outro cuidado é quanto ao preparo: algumas PANC, como taioba, chaya e caruru, contêm antinutrientes que são neutralizados pelo cozimento, por isso não devem ser consumidas cruas. Já outras podem ser consumidas in natura, em sucos ou saladas, desde que bem higienizadas. Na dúvida, o caminho mais seguro é buscar informação com especialistas — biólogos, agricultores da espécie, ou materiais técnicos confiáveis, como a cartilha do Instituto Kairós sobre PANC.

Mais do que uma tendência, as PANC são uma estratégia concreta de sustentabilidade, saúde e resiliência diante das mudanças climáticas — e a COP30 pode ser a oportunidade para colocá-las de vez no centro do debate sobre o futuro da alimentação.


Conteúdo baseado na matéria de capa “Dossiê PANC: sustentabilidade, saúde e cultura alimentar no prato”, de Isadora Martins, Gabriella Manzini e Alicia Sei, publicada na Revista Sustentarea (USP), v. 9, n. 1, abril de 2025.

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