Em 2015, a ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): um plano de ação global, organizado em cinco pilares — Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias —, com o lema “não deixar ninguém para trás”. Pode parecer distante da nossa cozinha, mas as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) se conectam de forma direta com vários desses objetivos. Reunimos aqui os principais.

ODS 1 — Erradicação da pobreza

O Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2024 mostra que 1,1 bilhão de pessoas — mais da metade delas crianças — vivem em situação de pobreza aguda, com maior concentração nas áreas rurais. Como muitas PANC nascem espontaneamente e exigem pouco investimento para cultivo, elas ampliam o acesso a alimentos nutritivos para além do que está disponível (e do que cabe no bolso) nas prateleiras dos mercados.

ODS 3 — Saúde e bem-estar

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) respondem por 71% das mortes registradas globalmente segundo a OMS. Uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados é uma das principais estratégias de prevenção — e várias PANC têm propriedades nutracêuticas reconhecidas. O picão-preto (Bidens pilosa), por exemplo, é rico em ferro, zinco e cobre, com forte ação antioxidante.

ODS 12 — Consumo e produção responsáveis

No Brasil, cerca de 20% da alimentação já é composta por ultraprocessados, o que agrava problemas de saúde e amplia impactos ambientais como esgotamento do solo e uso intensivo de agrotóxicos. As PANC ajudam a inverter essa lógica: têm ciclo de produção curto, são cultivadas majoritariamente por pequenos produtores e chegam à mesa por circuitos mais curtos, exigindo menos armazenamento e transporte.

ODS 13 — Ação contra a mudança global do clima

2024 foi o ano mais quente já registrado, com a temperatura média global ultrapassando pela primeira vez 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Os sistemas alimentares atuais respondem por cerca de um terço das emissões humanas de gases de efeito estufa — no Brasil, esse número sobe para 70%, em grande parte por causa do desmatamento e da pecuária. Por serem regionais e demandarem menos insumos, as PANC representam um caminho mais leve para o planeta.

ODS 15 — Vida terrestre

Nos últimos 38 anos, o Brasil perdeu 15% de suas florestas naturais, com destaque para Cerrado e Amazônia — biomas essenciais para a regulação do clima e a segurança alimentar. Ao incentivar o consumo de espécies nativas em vez de monoculturas, as PANC contribuem diretamente para a conservação desses ecossistemas.

Um prato, muitos objetivos

Ao promover biodiversidade, reduzir desperdício (aproveitando folhas, talos e flores que normalmente seriam descartados) e fortalecer mercados locais, as PANC tocam simultaneamente vários pilares da Agenda 2030. Não é exagero dizer que cada garfada com uma PANC é também, de alguma forma, um voto por um sistema alimentar mais justo.


Conteúdo baseado na matéria “Da mesa ao planeta: a contribuição das PANC para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, de Beatriz Machado Martins, Cecília Klapka e Débora Bós e Silva, publicada na Revista Sustentarea (USP), v. 9, n. 1, abril de 2025.

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