No Brasil, dez produtos — arroz, feijão, pão, carne bovina, frango, banana, leite, refrigerante, cerveja e açúcar cristal — representam mais de 45% de tudo o que comemos. Na prática, isso significa uma alimentação bastante repetitiva, pobre em cores, sabores e diversidade. É nesse cenário que nasce a Casa Planta: um projeto criado por Tania Campos dentro da própria casa, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para provar que dá para comer — e viver — de outro jeito.

De documentarista a “plantadeira”

Antes da Casa Planta, a rotina de Tania era a de qualquer pessoa em São Paulo: trabalho em frente ao computador, refeições prontas escolhidas pela praticidade — sem muito questionamento sobre o que essa praticidade custava. A virada começou no trabalho, não na cozinha: formada em Cinema e especializada em documentários, Tania passou a registrar histórias de mulheres de áreas rurais e periféricas, muitas delas ligadas a hortas, quintais produtivos e comunidades sustentáveis.

Nas visitas a essas mulheres, entre a gravação e o almoço, Tania colhia coração de bananeira, batata-doce, cará-moela, inhame e todo tipo de folha e flor pelo caminho — e via aquilo virar refeições rápidas, baratas e surpreendentemente nutritivas. Movida pela curiosidade, começou a levar sementes para casa, plantando em vasinhos perto da pia da cozinha e documentando o aprendizado no Instagram, como uma espécie de diário pessoal. O diário virou rede: hoje, o perfil reúne mais de 120 mil seguidores.

Uma casa que virou ponto de encontro

Aos poucos, a própria casa de Tania foi ficando mais verde — e mais coletiva. Às sextas-feiras, ela passou a abrir as portas para jantares intimistas com chefs convidados, usando PANC fornecidas por pequenos produtores, majoritariamente mulheres. A ideia surgiu pouco antes da pandemia e precisou ser reinventada quando o isolamento chegou: nascia então a Cesta na Sexta, com entregas de cestas agroecológicas — produtos in natura, pães, bolos e patês sazonais. Houve hesitação em incluir PANC nas cestas, mas Tania percebeu rápido que era justamente por elas que os clientes se interessavam.

Hoje a Casa Planta também já comercializou vinhos, cervejas e biocosméticos de pequenos produtores brasileiros. Jantares e Cesta na Sexta seguem com o mesmo propósito: fortalecer uma rede de produtores e resgatar sabores, texturas e modos de preparo que a rotina de uma metrópole como São Paulo tende a apagar. Hoje a casa é sustentada por quase 30 núcleos de agricultoras e agricultores — a prova de que, por mais que o espaço leve o nome de Tania, o projeto nunca foi individual.

Plantar onde se está

Tania costuma dar um conselho simples para quem quer começar a plantar em casa mas não sabe por onde:

“Observe o que está ao seu redor: que plantas têm no prédio, no quarteirão, no trabalho, o que está brotando na fruteira.”

Ela também defende a compostagem como porta de entrada: descarta restos de comida em um recipiente de cinco litros na pia da cozinha, de onde brotam novas plantas enquanto se forma um adubo rico. “As coisas se auto brotam e se auto fertilizam”, resume. Quando compostar não é possível, sua dica é simples — comprou hortelã no mercado? Deixe o galho na água até criar raiz, e replante.

A PANC preferida de Tania: bertalha-coração

Entre tantas espécies que já experimentou, a bertalha-coração (Anredera cordifolia) é a favorita de Tania — o “espinafre nativo”, como ela chama, rico em cálcio, magnésio, ferro e potássio, capaz de crescer até 7 cm por dia em condições ideais. Suas folhas e tubérculos podem ser consumidos cozidos, em recheios, purês, patês, pães e bolinhos.

“É uma autonomia alimentar de verdade. […] Essa planta é altamente adaptativa, cresce sob qualquer circunstância. A bertalha traz uma história de resiliência, força.”

Um espaço para experimentar, errar e aprender junto

Apesar de convidar chefs para os jantares, Tania também cozinha — de propósito. Quer mostrar que uma pessoa comum, como ela se define, consegue preparar seu próprio alimento e fazer dele algo saboroso. Foi assim, brincando na cozinha, que ela foi se familiarizando com texturas, sabores e formas de preparo: cru, cozido, frito, assado.

A proposta da Casa Planta sempre foi essa: que as pessoas se conectem primeiro com a história por trás do alimento, antes de qualquer coisa. Um espaço pequeno e íntimo, pensado para trocar, provar, colher e cozinhar junto — porque, no fim das contas, falar de PANC nunca foi só falar de planta. É um jeito de levar a vida.


Conteúdo baseado na matéria “A história da Casa Planta e de Tania Campos”, de Iris Hunnicutt e Ana Maria Bertolini, publicada na Revista Sustentarea (USP), v. 9, n. 1, abril de 2025.

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